Vitamin

The tendency is to be imperfect.

Há alguns anos venho acompanhando uma tendência curiosa no universo dos brinquedos: a ascensão dos que parecem, à primeira vista, imperfeitos. Eles não são exatamente feios, mas são esquisitos, desproporcionais ou até bizarros.

É o chamado ugly-cute — o “fofo-feio”.

O Labubu talvez seja um dos símbolos mais famosos dessa tendência. O pequeno monstrinho dentuço virou febre mundial e transformou uma estética pouco convencional em objeto de desejo. A própria Pop Mart, responsável pelo fenômeno, tem uma série de personagens que fogem do padrão tradicional do “bonitinho feliz”, como o Crybaby, que está sempre chorando; Skullpanda, com sua aparência sombria; Hirono, melancólico; entre tantos outros.

Em um caso mais extremo, temos os Fugglers: com olhos sonolentos e dentes que parecem humanos, eles têm uma aparência grotesca, de quem está “acabado”. E justamente sua originalidade e imperfeição conquistaram fãs e fizeram com que ganhassem força nas redes sociais, especialmente na Ásia.

Outro caso bem curioso é o sucesso, no Japão, das pelúcias dos personagens mais secundários de Bob Esponja: os peixes que aparecem ao fundo, vivendo uma vida bastante monótona na Fenda do Bikini. Acredita-se que esse sucesso esteja relacionado à identificação das pessoas com o mood desses personagens, que representam uma vida cotidiana marcada pelo cansaço e desânimo.

Não é só no universo dos brinquedos

Existe algo maior acontecendo. Passamos anos vendo imagens super produzidas: corpos perfeitos, casas perfeitas, produtos perfeitos… São sempre vidas perfeitas e desejáveis, porém inalcançáveis. A IA só potencializou isso.

Falta identificação. Por isso, o imperfeito agora pode parecer mais familiar, humano e real.

Estou citando os brinquedos como referência, mas também presencio isso nas redes sociais. Grandes marcas estão investindo cada vez menos em propagandas ultrapro­duzidas e mais em pessoas comuns, criadores de conteúdo, que falam de seus produtos em seu próprio linguajar, mesmo com uma produção limitada e fora das diretrizes de “branding”.

O público busca identificação

Diante disso, a estratégia de divulgação das marcas deve considerar (ainda mais) que sua conversa é sempre com uma pessoa do outro lado, que tem suas qualidades, defeitos, anseios, dilemas, dificuldades etc.

Ou seja, uma boa forma de atrair o público não necessariamente está em divulgar a melhor imagem, mas, sim, como ela faz sentido e se conecta com o mundo real.

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